Na LUZALBA, o gyotaku em Portugal ganha forma através da impressão de peixe, tinta natural de lula ou choco e têxteis recuperados. A partir do Algarve, Daniela S.F. cria registos do Atlântico mantendo o peixe dentro do ciclo alimentar.
Na costa sul de Portugal, um peixe é pousado sobre tecido e deixa a sua forma em tinta escura. Escamas, barbatanas e o contorno do corpo surgem à escala real, acompanhados por pequenas irregularidades que pertencem àquele animal. Depois, o peixe é limpo, cozinhado e levado à mesa.
É nesta sequência que se concentra a prática da LUZALBA®, criada pela artista e designer Daniela S.F. no Algarve. O Atlântico fornece tema, matéria e contexto, enquanto o trabalho segue um princípio claro: usar cada recurso com intenção e prolongar a sua função sempre que possível.

Onde o Atlântico deixa a sua marca
Daniela regressou a Portugal depois de vários anos em Veneza, onde estudou Escultura na Accademia di Belle Arti di Venezia e trabalhou no contexto da arte contemporânea da cidade, incluindo períodos de assistência a artistas durante a Bienal de Veneza. Antes de partir para Itália, tinha estudado Design de Cerâmica e Vidro na ESAD.CR, nas Caldas da Rainha.
O regresso trouxe outra escala de atenção.
A viver perto da costa algarvia, Daniela começou a concentrar-se na biodiversidade marinha, nas práticas piscatórias e na relação entre produção artística e recursos naturais. O mar entrou no trabalho através das espécies, do pigmento, da alimentação e do conhecimento acumulado por quem vive dele.
No centro desta prática estão as Fish Prints, desenvolvidas a partir do gyotaku, método japonês de impressão associado aos pescadores do século XIX, que aplicavam tinta diretamente sobre o peixe para registar a sua dimensão e forma. Um processo documental acabaria por encontrar lugar no campo artístico.
Daniela conserva a relação física e direta da técnica com o animal, deslocando-a para a ecologia e para a cultura material da costa sul portuguesa.
Em vez de tinta de impressão convencional, trabalha com a tinta natural de lula ou choco. As impressões são transferidas para têxteis recuperados e linho natural, permitindo que tecidos com um uso anterior passem a integrar a obra.
A origem japonesa do gyotaku permanece visível. A intervenção de Daniela está em situar a técnica dentro de outra cultura marítima, trabalhando com espécies, materiais e hábitos ligados ao Atlântico português.
Um corpo, uma impressão, uma refeição
A impressão de peixe depende do contacto. O pigmento acompanha a superfície do animal e transfere para o tecido a sua escala física: o recorte das barbatanas, a direção das escamas, a forma particular da cabeça e do corpo.
A pressão, a anatomia e a distribuição da tinta alteram cada impressão. A imagem conserva a precisão de um registo e, ao mesmo tempo, os vestígios da mão que a produziu. Depois, o peixe regressa à sua função original. É limpo, cozinhado e consumido, em vez de se tornar resíduo do ateliê. A obra é produzida sem retirar o animal do ciclo alimentar.
“Nada se desperdiça; tudo ganha uma nova vida”,”
A Daniela explica.
A frase descreve um sistema concreto. O peixe produz uma imagem e continua a ser alimento. A tinta de lula ou choco torna-se pigmento. Um tecido recuperado recebe outra função.
É esta lógica material que dá consistência ao trabalho.
A responsabilidade ambiental está presente na sequência das decisões: o que já existe, que função pode assumir e o que acontece depois de concluída a peça. O resultado final mantém essas escolhas legíveis.
Os tecidos recuperados chegam ao ateliê com uma história material já iniciada. Daniela não procura apagá-la. A impressão acrescenta-lhe outra camada: o vestígio de um animal marinho, transferido através de um pigmento proveniente do mesmo ambiente.
Esta economia de meios também define a aparência das peças. Peixe, tinta, tecido e mão permanecem reconhecíveis. Pouco é introduzido para esconder o processo.
Há nestas impressões uma dimensão de arquivo.
Cada uma preserva a escala e o carácter físico de um peixe específico, criando um registo situado entre imagem, espécime e memória. O trabalho dirige a atenção para as espécies marinhas sem perder de vista o conhecimento que existe à sua volta: pescadores, cozinheiros e comunidades costeiras cuja compreensão destas águas se construiu através da prática continuada.
Portugal e Japão possuem histórias marítimas distintas, mas a pesca atravessa, em ambos os contextos, alimentação, trabalho e memória coletiva. A LUZALBA cria um ponto de contacto entre estas culturas sem as confundir.
A interpretação atlântica permanece ligada a um lugar concreto.
A prática de Daniela inclui ainda peças têxteis, arte e joalharia feita à mão, unidas pelos mesmos interesses na vida marinha, na transformação de materiais e no uso responsável dos recursos. A LUZALBA está associada ao Loulé Criativo, iniciativa que aproxima criação contemporânea, saberes e identidade cultural da região.
O seu trabalho surgiu também em documentários e conteúdos televisivos europeus e encontra-se representado em coleções públicas, incluindo o Museu de Vila do Bispo. Estes contextos ampliam a conversa em torno da literacia oceânica, do conhecimento regional e da produção artística de pequena escala, mantendo o trabalho ligado à costa onde começou.
O que permanece
A LUZALBA ocupa um lugar na THE PORTUGUESE LIST pela coerência do seu método.
A Daniela parte de uma técnica de impressão nascida noutra cultura marítima e trabalha-a a partir do Algarve, articulando espécies marinhas, pigmento natural e tecido recuperado dentro de um mesmo sistema. A origem do gyotaku é reconhecida; a costa portuguesa determina a forma como a técnica é praticada neste contexto.
Para THE PORTUGUESE LIST, a distinção reside precisamente nesta ligação entre a imagem e a utilização. A obra não necessita de uma narrativa contextual separada para explicar a sua posição. São as próprias escolhas materiais da obra que já desempenham essa função.
Um peixe deixa uma imagem e continua a ser alimento. Um tecido transporta a sua vida anterior para uma nova função. A tinta regista a presença física de um animal e das águas de onde veio.
O que permanece é um vestígio do Atlântico, guardado no tecido.



