Sanjo
As sapatilhas como símbolo cultural

Ao reimaginar um clássico nacional, a Sanjo tece noventa anos de história num futuro guiado pelo design — firmando, em cada passo, a identidade portuguesa.

Há algo de silenciosamente cativante na Sanjo. À primeira vista, um par das suas sapatilhas em lona transmite leveza — despretensiosas, acessíveis, enraizadas. Mas sob essa simplicidade vive uma história profunda, feita de intenção e continuidade. Usada por gerações, esquecida e depois redescoberta, a Sanjo não é uma marca que segue tendências. É um artefacto cultural, reinterpretado com cuidado. Um clássico português restaurado, não por nostalgia, mas como convite: a mover-se de forma diferente, a viver com mais consciência, a honrar o que perdura.

A Sanjo nasceu em 1933 em São João da Madeira, cidade historicamente ligada à indústria e ao saber-fazer português. Numa altura de transição global na moda, a Companhia Industrial de Chapelaria — até então dedicada à produção de chapéus — voltou-se para o calçado. Assim surgiu a Sanjo: a primeira marca portuguesa de sapatilhas. Com solas de borracha e linhas simples, tornou-se omnipresente — nos pés de estudantes, atletas e trabalhadores. Não era moda. Era presença. Durante mais de meio século, a Sanjo foi o calçado do quotidiano em Portugal.

Com a globalização nos anos 90, a marca perdeu espaço e a fábrica encerrou. Mas a memória permaneceu. Em 2019, os empreendedores José Egipto Magalhães e Hélder Pinto lideraram o seu renascimento — não como recriação de um produto, mas como resgate de uma história.

A Sanjo atual assenta em investigação, restauro e respeito. Sem moldes nem arquivos originais, a equipa reconstruiu a identidade da marca visitando fábricas antigas, contactando colecionadores e recolhendo testemunhos. O que emergiu foi mais do que um produto — foi uma filosofia. Agora produzida em Felgueiras, com materiais locais e mãos portuguesas, a Sanjo recupera o seu ADN com consciência e autenticidade.

Se no passado recorria à vulcanização, hoje aposta numa alternativa mais sustentável: colagem das solas, com menor impacto ambiental. Os materiais são naturais e responsáveis — borracha, algodão orgânico, bombazine e até lã burel. O resultado é uma sapatilha que recusa o ruído do presente. Branding discreto. Tons sóbrios. Uma forma intemporal — que não pertence a uma década específica, e por isso pertence a todas.

No centro da proposta da Sanjo estão dois modelos que atravessam gerações: o K100 e o K200. O K100, popular nas escolas e pavilhões desportivos, regressa com a sua clássica parte superior em lona e sola redesenhada. O K200 apresenta uma estrutura ligeiramente mais refinada, mantendo o conforto e a simplicidade. Ambos refletem a essência da marca: forma sem excesso, design com propósito.

Mas a visão da marca não se limita aos ténis. As colaborações com a comunidade do skate levaram a novos designs prontos para o movimento. Projectos com Burel Factory trazem a lã de herança para formas inesperadas. Uma linha de vestuário limitada e uma fragrância comemorativa do 90º aniversário apontam para um universo maior e em evolução - sempre português na alma, sempre humano na escala.

Neste renascimento, a Sanjo oferece mais do que sapatilhas — oferece um novo ritmo. Um ritmo lento, atento, respeitador da origem. Não procura atenção — caminha com presença. Num cenário dominado pela velocidade e pelo excesso, a Sanjo recupera o valor da continuidade. Honra a memória, não através da repetição, mas da compreensão — e escolhe com cuidado como a levar adiante.

É por isso que a Sanjo está presente na THE PORTUGUESE LIST. Não apenas como uma marca de excelência em design, mas como guardiã do tempo cultural — lembrando-nos que alguns dos passos mais significativos são aqueles dados com intenção.