A Adico tem moldado o design português ao longo de mais de um século, criando mobiliário duradouro que reflete a identidade cultural e o compromisso com a qualidade.
Num recanto tranquilo de Portugal, perto da brisa costeira de Estarreja, desenrola-se há mais de um século uma narrativa singular em metal. A Adico não é uma marca que persegue tendências. Não precisa de o fazer. As suas formas, linhas e materiais falam na linguagem tranquila da permanência - de objectos que pertencem à memória, ao lugar e aos rituais partilhados da vida quotidiana.
Falar da Adico é falar de presença. De cadeiras que testemunharam conversas em cafés, de mesas que sustentaram chávenas e silêncios. Fundada em 1920, a Adico ocupa há muito um lugar não apenas nas casas e espaços públicos portugueses, mas também na identidade coletiva do design do país. E, no entanto, apesar da sua longevidade, mantém-se fiel a um princípio essencial: criar peças que resistem — no tempo, na cultura e na estética.
A empresa foi fundada por Adelino Dias Costa, um artesão autodidata cuja sensibilidade para a forma e função deu origem a uma das primeiras marcas industriais de mobiliário em Portugal. Desde o início, a Adico preocupou-se com a utilidade — produzindo mobiliário metálico, cofres e equipamentos hospitalares. Mas mesmo nesse tempo, havia algo de silenciosamente elegante no seu modo de fazer. O metal, muitas vezes visto como frio ou meramente funcional, era trabalhado em curvas suaves, proporções equilibradas e silhuetas intemporais.
A evolução da Adico não foi feita de rupturas, mas de um refinamento constante dos seus princípios fundadores. Enquanto muitas marcas cederam ao ritmo acelerado das tendências, a Adico permaneceu firme — mais interessada na continuidade do que na reinvenção. Não quer dizer que não tenha evoluído. As últimas décadas trouxeram novos designers, colaborações e um diálogo atento com a cultura de design contemporânea. Mas cada novo gesto permanece enraizado num respeito antigo pelo processo, pelo material e pela forma.



Esse equilíbrio entre herança e futuro talvez se revele com maior clareza na peça mais icónica da marca: o modelo 5008, conhecido simplesmente como a cadeira portuguesa. Presente em esplanadas, cantinas e cafés, dos bairros lisboetas às vilas do interior, tornou-se um símbolo discreto do design nacional. As suas linhas simples, a estrutura tubular, a leveza silenciosa — tudo nela comunica pertença. Integra-se no cenário, no hábito, na memória.
Mas o legado da Adico vai além de um único objeto. A produção continua a ser feita localmente, preservando técnicas tradicionais de metalurgia ao mesmo tempo que adota práticas sustentáveis e eficientes. O mapeamento da sua presença global — de Paris a Osaka — revela uma crescente valorização do design português lá fora. Uma presença silenciosa, mas firme — mais ética do que espetacular.
Encontrar uma peça da Adico é encontrar tempo — o tempo da sua criação e o tempo que ela nos pede. São objetos que envelhecem com dignidade. Que sobrevivem às modas. Que nos recordam que o bom design não é necessariamente o mais visível — mas quase sempre o mais duradouro.
Ao entrar no seu segundo século de existência, a Adico continua a criar com a mesma intenção que moldou o seu passado. Não precisa de se reinventar quando a base é tão sólida. Há espaço, sim — para evoluir com calma, para honrar o que permanece e para continuar a praticar a arte de fazer com cuidado.
Não falamos sobre a Adico porque chegou o momento de escolher uma marca. Escrevemos sobre a Adico porque a amamos — porque o seu trabalho já ocupa um lugar na paisagem cultural de Portugal, e no imaginário de todos os que acreditam que o design, no seu melhor, é ao mesmo tempo quotidiano e intemporal.