Uma artista têxtil da Covilhã que transforma a lã esquecida de uma fábrica histórica em esculturas de luz luminosas, sustentáveis e cheias de alma.
Ana Paula Almeida, A Tecelã da Luz
A cidade da Covilhã, situada nas encostas da Serra da Estrela, em Portugal, sempre foi um local moldado pelos fios. Durante séculos, o seu coração bateu ao ritmo dos teares, do zumbido das máquinas e da persistência silenciosa de inúmeras mãos. Conhecida como a «Manchester de Portugal» pela sua próspera indústria de lã, a Covilhã tornou-se um dos centros têxteis mais importantes do país, onde a lã definia tanto a identidade como o sustento. Embora grande parte da indústria tenha desaparecido, a sua memória permanece nas paredes de pedra das fábricas abandonadas e na vida daqueles que outrora nelas trabalharam.
É neste cenário de património e de ecos que Ana Paula Almeida encontrou a sua vocação. Professora de química e engenheira de formação, o seu mundo foi durante muito tempo definido pela lógica, pelas fórmulas e pela ciência da matéria. No entanto, a par desta vida analítica, existia um fio condutor paralelo: o seu fascínio pelo artesanato manual. Croché, tricô, bordado, estas paixões silenciosas acompanharam-na desde a infância e, com o tempo, transformaram-se em algo mais profundo, fundindo-se com a sua identidade profissional da forma mais inesperada.
O percurso artístico de Ana Paula é tão importante quanto a própria arte. O seu marido herdou a fábrica de lã Júlio Afonso, um local outrora movimentado que hoje é uma relíquia do passado industrial da Covilhã. Dentro das suas paredes encontrava-se um imenso arquivo intocado de fios de lã que datavam da década de 1970, material esquecido, mas ainda repleto de possibilidades.
Para Ana Paula Almeida, esta descoberta foi transformadora. As cores vibrantes da lã, preservadas durante décadas, eram mais do que matéria-prima; eram histórias à espera de serem recontadas. Cada carretel trazia a memória das mãos que a fiaram, tingiram e trabalharam. Deixá-la escondida seria silenciar essas vozes.
A partir dessa redescoberta, surgiu uma filosofia: nada deve ser desperdiçado. Esse compromisso tomou forma no seu projeto Petrus by Ana Almeida, uma coleção que reimagina a lã esquecida como radiantes esculturas de croché. Em cada peça, a sustentabilidade não é abstrata, é um ato vivo de preservação. O que antes corria o risco de desaparecer no silêncio agora brilha com um novo significado, prova de que preservação e reinvenção podem andar de mãos dadas.
O simples ato de dar nome: Lâmpadas esculpidas em croché
Nas mãos de Ana Paula Almeida, o croché transcende a tradição. Cada laçada e cada ponto tornam-se parte de uma visão mais ampla, transformando o fio em escultura, o artesanato em arte. As peças que ela cria sob a sigla APA (suas iniciais) são mais do que candeeiros. São esculturas luminosas, recipientes de luz, cor e memória.
Suspensas em grupos ou isoladas, estas esculturas de luz em croché convidam à interação. Projetam sombras mutáveis, brincam com a textura e criam um diálogo entre suavidade e estrutura. São objetos para serem tocados, observados e vividos. Na sua presença, a herança têxtil duradoura de Portugal não sobrevive simplesmente, brilha.
Cada candeeiro tem o nome de uma mulher, Alice, Maria, Amália, Aurora, Antónia e inúmeras outras, em homenagem àquelas que outrora deram vida à fábrica Júlio Afonso. Desta forma, as suas criações transcendem o design; tornam-se memoriais vivos da resiliência, da comunidade e da dignidade silenciosa do trabalho. Para Ana Paula Almeida, "ser mulher é ser luz, ser inspiração".





O New Hand Lab: Uma força colectiva
O trabalho de Ana Paula vai para além das suas próprias criações. É co-fundadora e artista residente na Novo laboratório de mãos, uma associação cultural situada no próprio edifício da antiga fábrica.
Descrito por Ana Paula e pelo marido como o seu "filho", o projeto é simultaneamente pessoal e coletivo. Reimagina a fábrica como um centro de cultura, onde artistas contemporâneos, designers e criadores dão nova vida ao património industrial. Aqui, a tradição e a inovação coexistem. O passado não é preservado como uma memória estática, mas reinterpretado como um catalisador para novas possibilidades criativas.
O trabalho de Ana Paula Almeida tem um lugar incontornável na The Portuguese List, pela sua dedicação à narrativa autêntica, à preservação cultural e ao design com alma. Em cada escultura luminosa, Ana Paula Almeida faz a ponte entre o antigo e o novo, a ciência e o artesanato, a memória e a inovação. O seu trabalho não é apenas uma celebração do património têxtil de Portugal, mas também uma demonstração de como a sustentabilidade e a criatividade podem entrelaçar-se para criar algo intemporal.